quinta-feira, 28 de maio de 2009

Cinemagia: Curtindo a Vida Adoidado... assistindo Sessão da Tarde!


Poucos longa-metragens conseguem a proeza de fazer tantas pessoas grudarem os olhos em sua história com uma idéia tão simples quanto a de Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller´s Day Off) de 1986.
O filme simplesmente narra a história de um estudante muito malando, Ferris Bueller (Matthew Broderick), que bola um super-esquema pra matar aula em alto estilo, junto com a namorada Sloane (Mia Sara) e o melhor amigo Cameron (Alan Ruck), pra desespero de sua irmã pentelha, Jeanie (Jenifer Grey), e de seu arquiinimigo, o Diretor Ed Rooney (Jeffrey Jones), os únicos que não se deixam levar pela lábia do rapaz.
Pra se dar bem, Ferris finge estar muito doente, enganando os pais e o colégio inteiro a ponto de vários de seus colegas começarem a hilária campanha "Salve Ferris" para conseguir fundos para o tratamento, operação ou transplante que Ferris estaria precisando. Assim, o filme por esse lado mostra o poder das lendas urbanas na "mitologia" adolescente, conceito que ganharia mais força e importância em Te Pego Lá Fora, lançado no ano seguinte.

Ignorando toda essa comoção e sem a menor culpa, Ferris e sua galera passam o dia numa verdadeira farra, pilotando uma ferrari (eles e os manobristas né?), comendo em restaurantes caros, nadando na piscina e parando uma passeata no meio da cidade, fazendo todos cantarem regidos por Ferris. Essa, aliás, é a cena mais anos 80 de um filme que, na verdade, não tem quase nada dos anos 80.
Apesar de gostar bastante desse longa, ele nunca me empolgou tanto quanto à maioria das pessoas. O que me incomodava é que tava muito na cara desde o princípio que o Ferris ia se dar bem... o coitado do diretor, que passa toda a trama tentando incriminar o aluno por um erro que, afinal, ele tinha cometido mesmo... nunca teve a mínima chance...
Ferris Bueller é tão esperto, furtivo, sacana, maroto, carismático e divertido... como o Pica-Pau. Mas até o Pica-Pau, e qualquer outro personagem de desenho animado clássico nesse estilo, se dão mal em algum momento.

Acho que isso me decepcionou um pouco a primeira vez que eu assisti. Ficava esperando uma reviravolta que não aconteceu, nem aconteceria nunca... não que eu não torcesse pelo Ferris, mas é que em nenhum momento o gigantesco carisma dele é posto à prova. Mesmo que a irmã não se arrependesse e o salvasse no final, alguém duvida que ele não daria um jeito?
Depois, saquei melhor qual era a do filme e decidi fazer como o Cameron no fim, ligar o foda-se e relaxar, assistindo a Curtindo a Vida Adoidado, uma deliciosa aventura nosense sobre aproveitar ao máximo a juventude antes que ela termine e você vire um adulto que só sabe encher o saco dos jovens pra que eles virem réplicas imperfeitas e insuportáveis do que um adulto teoricamente deveria ser, como a irmã do Ferris.

O diretor John Hughes, que também escreveu o roteiro, foge dos clichês precisamente na época mais fértil em clichês do cinema, a dos filmes adolescentes dos anos 80. Talvez por isso, ainda que contraditoriamente, eu não consigo sentir esse filme como "O" retrato daquela geração, mas como uma obra original e criativa com um protagonista marcante e suas aventuras surreais e propositalmente superficiais.
Ele pode ser encarado como o sonho almejado de várias gerações por ser atemporal, ao mesmo tempo em que se afasta de ser um retrato daquela década específica.
Muitos outros longa-metragens produzidos naquela época retratam a vida adolescente e em quase tudo a maioria deles são considerados pelos críticos como inferiores à história de Ferris, mas grande parte fazem parte da minha memória afetiva com mais intensidade.
Pra começar, Ferris não é um adolescente de verdade, nem tenta ser. Ele, ao invés disso, é aquilo que TODOS GOSTARIAM DE SER! Um cara que sempre se dá bem sem nunca erguer um dedo ou levantar a voz, é admirado entre os mais jovens e querido pelos mais velhos. O Cameron, por outro lado, é o seu extremo oposto. Oprimido e desprezado pelo pai, tímido, deprimido e estressado, segue Ferris, mesmo desconfiado de que tudo vai sempre dar errado. Às vezes ele lembra aquela hiena da Hanna-Barbera.
Mas mesmo um tanto estereotipado, Cameron ainda é mais próximo de um retrato adolescente do que Ferris.

Essa é a grande sacada de John Hughes. Não adianta só mostrar Ferris falando com a câmera pra torná-lo cúmplice do público (recurso que é usado nesse filme com uma presteza que acho que eu nunca vi igual). É preciso pegá-lo pela mão e trazê-lo pra se divertir também. Quando ele faz isso com Cameron, está fazendo também com cada frustrado que vê o filme, por mínima que seja a sua frustração.
Não à toa que, a certa altura, Ferris diz que queria dar aquele dia de folga como uma espécie de presente ao Cameron antes que os dois crescessem. O fato é que no fundo ninguém quer se arriscar tanto quanto o Ferris, mas todo mundo quer ter um amigo que tome a iniciativa e te leve junto, nem que seja pra quebrar a cara juntos.
Mas a trama não é sobre o Cameron. Quando ele está quase roubando a cena, some de vista e não sabemos como foi sua briga com o pai, que nunca parece, após destruir a maldita ferrari.
O clímax se volta novamente pra Ferris e seus conflitos, que não são conflitos de verdade comparados aos do amigo. Foi como se o diretor quisesse mandar o recado de que, passado o momento de tensão, era hora de voltar à relaxar na poltrona.

Tem algo do cinema italiano em Curtindo a Vida Adoidado que eu nunca pude explicar direito... mas dá até pra imaginar que no futuro o personagem de Matthew Broderick vai se transformar no de Vitorio Gassman em Aquele Que Sabe Viver (Il Sorpasso)... que pode muito bem ter sido a inspiração pro longa norte-americano.
Quem sabe? Afinal, o clássico da Sessão da Tarde também inspirou outros filmes depois dele e, infelizmente, eu só me lembro que eram absolutamente sem graça, pois Nenhum longa posterior conseguiu retratar a sagacidade da trama do personagem de Broderick.
No entanto, diferente do filme italiano de Dino Risi, Hughes não quer refletir e Ferris não quer buscar afirmar o seu sentido pra vida... ele se contenta em vivê-la...
Por isso, Curtindo a Vida Adoidado nunca será um dos meus filmes preferidos, mesmas razões, provavelmente, pelas quais ele deve estar entre os preferidos de muitas outras pessoas que pensem diferente de mim.
Toda essa despretensão aliada a muito senso de humor, porém, o imacularam unanimemente no inconsciente coletivo simplesmente como um grande filme, o que realmente é.

Um comentário:

Alê Reichemback disse...

Cara, o que eu tinha que comentar já escrevi na comunidade do Homem-Aranha, mas to passando aqui pra ressaltar que, apesar de também não ser um dos meus filmes favoritos, gosto muito dele. Abraços, t+!